Projeto GNU (1984): A História e a Origem do Software Livre

Na década de 80, as empresas trancaram o código dos computadores. Conheça a história do projeto GNU (1984) e a origem da revolução do software livre.

HISTÓRIAS DE BASTIDORES

9/4/20264 min read

Imagine comprar um carro e descobrir que o capô está soldado com aço. Você pode dirigi-lo, mas é estritamente proibido abrir o motor para consertar um defeito ou tentar melhorar o seu desempenho. Na década de 1980, foi exatamente isso que a nascente indústria da tecnologia tentou fazer com os computadores, trancando a sete chaves o código-fonte dos programas. É a partir dessa frustração que nasce uma das histórias mais fundamentais para o nosso: a revolução e origem do software livre.

A Era de Ouro e os Primeiros Hackers

Para entender nossa história, precisamos entender o contexto por trás dela, para isso precisamos voltar a 1971, no Laboratório de Inteligência Artificial do MIT. Lá trabalhava Richard M. Stallman, parte de uma comunidade que se autodenominava "hackers". Naquela época, essa palavra não tinha a conotação negativa que às vezes  atribui-se hoje, ou seja, não necessariamente pessoas que quebravam a segurança dos sistemas, apenas indivíduos extremamente criativos que amavam destrinchar sistemas e apaixonados por programação. Nesse ambiente de pura pesquisa acadêmica, o software (programa que todo computar utiliza) não era um produto comercial fechado, mas sim conhecimento compartilhado. Os programadores frequentemente trocavam programas entre si, modificando-os e melhorando-os.

O Acordo de Confidencialidade e a Gênese do GNU

Porém, no início dos anos 80, o cenário corporativo mudou drasticamente, primeiro porque a Corporação de Equipamentos Digitais (DEC) resolveu descontinuar o PDP-11, um minicomputador (para os padrões atuais) utilizado nos laboratórios em que o Stallman trabalhava, sendo que os programas na época não eram facilmente portáveis para outros computadores. Em segundo lugar, a universidade passou a usar sistemas proprietários e as empresas passaram a exigir que os programadores assinassem pesados acordos de confidencialidade (NDAs) apenas para ter acesso ao código executável. Para Stallman, isso era um absurdo moral e o fim de uma era de ouro. Ele argumentava que o primeiro passo para usar um computador havia se tornado jurar que você não ajudaria o seu próximo, transformando a cooperação mútua em um ato de pirataria.

Nosso herói, inconformado em se curvar às regras da indústria, tomou uma decisão radical: iria construir, totalmente do zero, um sistema operacional completo que pudesse ser compartilhado livremente por qualquer pessoa. Como precisava de uma base técnica que a comunidade já estivesse acostumada a operar, usou o popular sistema Unix como inspiração estrutural, mas batizou sua criação com um acrônimo recursivo e irônico: GNU, que significa "GNU's Not Unix" (GNU não é Unix).

As Quatro Liberdades e a Invenção do Copyleft

O coração do projeto GNU não eram apenas as suas linhas de código, mas a fundação inegociável da filosofia do "Software Livre". E aqui mora uma confusão comum que precisamos desmistificar: livre não significa necessariamente gratuito. Para ser livre, um sistema deve obedecer as quatros liberdades essenciais ao usuário: a liberdade de rodar o programa para qualquer fim; de modificá-lo para atender às suas necessidades (o que exige que o capô esteja destrancado, ou seja, acesso livre ao código-fonte); de redistribuir cópias; e de distribuir suas próprias versões modificadas.

Para proteger essas liberdades e garantir que nenhuma empresa gigantesca se apropriasse do seu trabalho no futuro, Stallman inventou o genial conceito de "copyleft". Ele usou a própria lei de direitos autorais (copyright) para o efeito exato oposto: garantir que o software, e todas as modificações feitas por terceiros a partir dele, permanecessem livres e abertos para sempre.

Assim, em janeiro de 1984, Stallman largou seu emprego no MIT e começou a trabalhar no projeto GNU. Ele temia que o MIT pudesse exigir o copyright do software desenvolvido por ele, visto que era empregado lá, mas o próprio diretor do laboratório de IA do MIT convidou-o a continuar usando o espaço da universidade, mesmo que não sendo mais funcionário.

Inicialmente, ele pensou em usar o Free University Compiler Kit, mas ao perguntar ao criador sobre sua utilização o mesmo afirmou que a universidade era "livre", mas não o software. Assim, nosso personagem resolveu escrever um compilador multiplataforma (que poderia ser utilizado em diversos sistemas operacionais), nascendo assim o GCC. O primeiro produto do projeto foi o GNU Emacs, um editor de textos famoso até os dias atuais.

Em 1985, o Emacs já era usável e para distribui-lo, Stallman usou o próprio computador que tinha no MIT e disponibilizou o software no endereço prepai.mit.edu através do serviço do File Transfer Protocol (FTP) ou seja Protocolo de Transferência de Arquivos, muito utilizado para transferir arquivos entre computadores em uma rede. Mas a maioria das pessoas não tinham acesso a rede, então após pensar bastante, ele se dispôs a enviar o Emacs gravado em fita magnética, para qualquer um que lhe pagasse 150 dólares, dinheiro utilizado para financiar o projeto.

Com o crescimento da comunidade, foi criada, em 1985, a Free Software Foundation (FSF), uma empresa filantrópica, isenta de impostos, para desenvolvimento de Software Livre. Logo foram adicionados outros produtos, como manuais e outros tipos de documentos.

O Carro Perfeito Aguardando o Seu Motor

Como vimos, o Stallman e sua comunidade construíram ferramentas incríveis, compiladores complexos e interfaces brilhantes. Eles fabricaram a carroceria perfeita, os pneus mais resistentes e o sistema elétrico mais avançado para o nosso "carro" digital. Mas havia um problema: a máquina formidável do GNU ainda não conseguia sair do lugar porque faltava o motor principal, o núcleo central do sistema operacional.

É exatamente nesse cenário de um carro revolucionário aguardando o seu motor que, anos depois, um estudante finlandês entra na história para encaixar a peça final com algo chamado Linux — mas essa é uma narrativa fantástica de colaboração global que dissecaremos em detalhes no nosso próximo artigo.