Como um ritmo brasileiro conectou o mundo digital

Você sabia que uma das ferramentas mais essenciais para as redes de computadores em todo o mundo foi batizada com o nome do nosso ritmo musical mais famoso? E o melhor: por pura coincidência algorítmica!

HISTÓRIAS DE BASTIDORES

10/1/20262 min read

No início da década de 1990, o mundo dos computadores enfrentava uma verdadeira barreira de idiomas. De um lado, tínhamos os sistemas da Microsoft, que usavam uma língua própria chamada SMB (Server Message Block) para compartilhar arquivos em uma rede corporativa. (Se essa sigla soa familiar, é porque a porta 445 do protocolo SMB foi a mesma explorada décadas depois no terrível ataque do WannaCry). Do outro lado, tínhamos o universo do Unix e da nascente comunidade de software livre, que falavam idiomas totalmente diferentes.

Fazer um PC Windows se comunicar com um servidor Unix para simplesmente compartilhar uma pasta era um pesadelo técnico e exigia a compra de pacotes corporativos caríssimos e fechados.

O Tradutor Invisível

Em 1991, na Austrália, um estudante de Ph.D. chamado Andrew Tridgell se deparou exatamente com esse problema: ele precisava que seu PC com sistema da Microsoft lesse um disco em um servidor Unix.

Inspirado pelo mesmo espírito da "era de ouro" do compartilhamento de conhecimento — que guiou pioneiros como Richard Stallman na criação do projeto GNU (o principal projeto por traz dos softwares livres) — Andrew decidiu não se render às soluções comerciais. Ele fez engenharia reversa. "Ouvindo" os pacotes de dados que viajavam pelo cabo de rede, ele começou a decifrar como os computadores da Microsoft conversavam e escreveu, a partir do zero, um servidor capaz de imitar e responder àquela mesma língua. Ele inventou um tradutor universal gratuito.

A Busca no Dicionário e o Clímax Musical

Inicialmente, o projeto não tinha um nome glamouroso, chamando-se algo próximo de "nbserver". Porém, em 1994, Andrew recebeu um aviso legal: uma empresa já possuía os direitos de um nome semelhante. Ele precisava rebatizar sua criação urgentemente para evitar um processo.

É aqui que entra uma das curiosidades mais geniais da programação. Sabendo que o protocolo original que ele havia decifrado era chamado de SMB, ele teve uma ideia de emergência. Ele abriu o terminal do seu computador Unix e deu um comando de busca (o famoso grep) no dicionário eletrônico interno do sistema, pedindo para listar qualquer palavra em inglês que contivesse as letras S, M e B, exatamente nessa ordem.

O computador vasculhou milhares de verbetes e cuspiu algumas opções estranhas, como salmonberry (um tipo de framboesa silvestre) e sawtimber (madeira para serrar). Mas ali, no meio da lista, estava a palavra mais curta, sonora e internacionalmente adotada nos dicionários de língua inglesa: samba, o nosso clássico estilo musical e de dança do Brasil.

Andrew não escolheu o nome como uma homenagem apaixonada ao Carnaval ou ao Brasil. Foi uma pura coincidência algorítmica e fonética de um programador precisando resolver um problema rápido de direitos autorais!

O Legado

O que começou como um experimento de um estudante virou uma das ferramentas de código aberto mais importantes do mundo. Hoje, o software de código aberto batizado por esse acaso de dicionário é uma das engrenagens mais vitais da infraestrutura de TI no planeta. Se o seu computador de trabalho consegue abrir arquivos no servidor corporativo de forma transparente, agradeça ao ritmo brasileiro que toca silenciosamente nos bastidores.